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SELMA PARREIRA – MEMÓRIAS SÃO HISTÓRIAS DA PELE

Por Katia Canton*

 

Mas para cada epiderme seria preciso uma tatuagem diferente, seria preciso que ela evoluísse com o tempo… a um desenho colorido ou abstrato corresponderia uma tatuagem fiel e sincera, onde se exprimiria o sensível. A pele vira porta-bandeira, quando porta impressões”. Michel Serres (Os Cinco Sentidos, RJ: Bertrand Brasil, 2000).

Armazém Feliz – secos e molhados e a Cerealista, máquina de beneficiar arroz e café pertencentes à família da artista, estão localizados em Anápolis e faziam parte de antigos galpões.

 

Eis que nesses mesmos galpões, em 2014, Selma Parreira e o curador, produtor e artista Antonio Ambrósio Bandeira se reuniram pela primeira vez para criar o projeto

Machina, um coletivo onde história das várias ocupações do espaço passaram a ser pesquisadas junto às tradições populares para então serem transformadas em arte por meio de olhares singulares. O resultado desse trabalho conjunto de pesquisa tomou corpo na exposição Poética e Memória do Espaço e dos Objetos, exibida no MAC Goiânia em 2018. Na Galeria Periscópio, a exposição, organizada em três momentos distintos, traz um breve recorte desse projeto.

 

Num primeiro momento, estão contidos os registros das chamadas Poéticas do Anil. Ali está o resultado da herança da artista, centenas de pedras de anil, fabricadas com o intuito de clarear roupas, um lote que lhe coube quando o armazém fechou no final dos anos 80. No projeto intitulado pelo nome feminino Luzalina—termo inventado por ela e que significa azul anil, ao contrário—Selma Parreira criou anéis com prata e anil e ofereceu-os, em caixinhas, feito preciosidades secretas, a lavadeiras do Rio Vermelho, na cidade de Goiás. Uma a uma, as mulheres testavam os anéis nos dedos de suas mãos estragadas pela labuta e, adornadas, reconhecidas, passavam a contar suas incríveis histórias de luta pela vida. A sequência dos depoimentos foi batizada de A Dor e os Segredos.

 

Num outro espaço da galeria, obras feitas com sobras de lonas de caminhão viram tatuagens. A série, chamada de Velar e Revelar iniciou-se no ano de 2000, com as primeiras lonas originárias da antiga máquina de arroz, adquiridas de caminhões que transportavam mercadorias do local. A sedução pelo desgaste e o posterior reaproveitamento do material e pelo trabalho dos profissionais, que têm como ofício o ato de remendar manchas e rasgos das lonas, tornaram-se a ignição para a criação da série. Os pedaços das lonas adquiridos para o trabalho de arte são sempre rejeitos.

 

Nas mãos da artista, tornam-se palimpsestos com camadas de registros da tradição do fazer. Tratadas com cloro e ácidos, as lonas viram peles historiadas. Testemunhos de marcas de vida, de movimento. Na terceira parte da exposição e em destaque nessa mostra localizam-se as telas, realizadas a partir da pesquisa do coletivo Machina no galpão da antiga Cerealista. Ali estão uma sorte de painéis exuberantes, feitos em grandes formatos, com planos profundos de cor e um mínimo de alusão narrativa, ora pinturas menores, que assumem um caráter mais geométrico. Mas não se pode atribuir definições formais estreitas a respeito dessas obras. As pinturas de Selma Parreira são híbridas e livres da aparente dicotomia entre abstração e figurativismo. São o que têm que ser e tomar corpo, feito porta-bandeiras das impressões que produzem na relação obra e artista.

 

A luz é a protagonista e o desafio nesta pesquisa para os artistas. “Em conjunto de galpões abandonados no interior de Goiás, ao abrir as grandes portas de metal, rasgos de claridade cortam o chão iluminando o espaço e os objetos dele. Naquele momento, tudo de carrega de uma força singular, imediatamente impregnando-se de um magnetismo Memorial, próprio de um lugar que viveu o protagonismo de um tempo não muito distante. A força e o tom grave de cada ambiente são reforçados pelos objetos que foram preteridos ao longo do tempo em que houve o desmonte da história.” Antônio Ambrosio Bandeira.

 

Geometrias tornam-se alusões a janelas enguiçadas ou a portas impedidas de abrir. Encáusticas fazem referência à arquitetura, aos objetos. O que é abstrato vira história e o que tem forma-figura é pensado enquanto fatura. Na amostra é oferecida ao espectador uma pequena parcela desse mundo. Suficiente, no entanto, para se compreender a cartografia dos lugares percorridos pela artista para compor as memórias de um trabalho denso e potente, que justapõe a história com a técnica, ou melhor, nas palavras da artista, a teoria com a cozinha do fazer artístico.

 

*Katia Canton é PhD em Artes Interdisciplinares pela Universidade de Nova York, professora-associada do Programa Interunidades em Estética e História da Arte da USP e pesquisadora da Universidade de Lisboa

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